O termo síndrome reflete um conjunto de sinais que caracterizam uma enfermidade e cólica, a manifestação de dor abdominal, que originalmente significa qualquer alteração do trato digestivo. Porém, é importante chamar a atenção sobre o fato de que algumas patologias em órgãos que não do aparelho digestivo podem desencadear sintomas semelhantes, o que levou alguns autores a classificarem a síndrome cólica em cólicas verdadeiras e falsas cólicas.
As causas de cólica são desconhecidas. O conhecimento de fatores de risco causadores de dores abdominais agudas em eqüinos é esparso e tendem a ser vagos, baseados em experiência clínica. Poucos estudos epidemiológicos têm avaliado o relacionamento entre possíveis fatores de risco e a ocorrência de cólica. Em contraste, um número considerável de pesquisas foram feitas na fisiologia e parasitologia do trato gastrointestinal, com o objetivo de entender os mecanismos fisiopatológicos básicos que podem resultar em dor abdominal aguda.
Atualmente, com o desenvolvimento da equideocultura, é comum a criação de cavalos para práticas esportivas e exposições. Nestes casos, a criação é geralmente de forma intensiva, os cavalos são criados fechados em cocheiras e sua alimentação é basicamente de ração, suplementada com feno, alfafa e grãos selecionados. O aparelho digestivo do cavalo, que é preparado para digerir fibras e pastagem, enfrenta constantemente mudanças no cardápio, e muitas vezes o organismo não se adapta a essas mudanças. A conseqüência mais grave de erros neste manejo alimentar, que os cavalos recebem atualmente, é a cólica. O aparelho digestivo do cavalo é bem mais complexo. Para se ter uma idéia, o estômago é uma câmara que comporta até 15 litros, os intestinos medem aproximadamente 30 metros e possuem capacidade para 180 litros. A digestão propriamente dita não ocorre no estômago e sim no que chamamos de Ceco, que no cavalo é uma grande câmara de fermentação do alimento, com capacidade de 30 litros. Esse compartimento digestivo está fixo no abdômen do cavalo através de ligamentos, e unidos através de válvulas que controlam a passagem do alimento. Assim sendo, quando algum fator interfere no bom funcionamento de todo este mecanismo, ocorre a cólica.
Conforme a Revista Horse Ilimitada (2003), as principais causas de cólicas são: espasmo de esôfago, dilatação gástrica aguda, dilatação gástrica crônica, gastrite, úlcera gástrica e péptica, gastroenterite, enterocolites, espasmo intestinal, meteorismo, quimoestase, impactação, obliteração por vermes, obliteração por enterólito e por corpo estranho, saplose, trombo embolia, vólvulo e torção, intussuscepção, encarceiramento, estrangulamento, e ruptura do reto.
Os sinais de cólicas mais evidentes são: cavar o chão, sudorese, deitar-se e levantar-se rapidamente, assumir posição de micção com freqüência, esticar o flanco, olhar para o flanco, levantar o lábio superior com freqüência, rolar-se, inquietação, tenesmo com ou sem defecação.
A anamnese constitui o rol de questões que fornecerão ao clínico informações fundamentais a respeito do animal, da propriedade e do caso clínico em si. As principais indagações são: tempo de início e evolução da crise, atitude e comportamento, características e grau de dor, crises anteriores, manejo da criação, alimentação, freqüência de defecação, características das fezes e eliminação de flatos, ingestão hídrica e micção, tratamento já realizado e seus resultados (drogas, doses, via e freqüência de administração).
A meta primária do exame inicial deve ser a diferenciação entre os eqüinos com moléstia leve ou não complicada, e os com distúrbio que potencialmente lhes ameaça a vida, e que exige posterior controle, cirurgia ou tratamento intensivo. Quanto mais cedo estes distúrbios forem identificados e, instaurada a terapia adequada, melhor será o prognóstico para um melhor restabelecimento. Com experiência, o rápido exame físico, embora abrangente, e a base de dados poderão ser consumados em minutos.
Afirma Thomassian (1996) que alguns procedimentos clínicos são imprescindíveis para o exame da síndrome cólica, tais como: comportamento geral e atitude, características e grau da dor, distensão e tensão abdominal, coloração das conjuntivas e mucosas, tempo de perfusão capilar, medida do pulso e suas características, freqüência cardíaca e respiratória, avaliação cutânea – desidratação estimada, auscultação do tórax e do abdômen, temperatura retal, palpação transretal, caracterização das fezes, refluxo e sondagem nasogástrica, laparoscopia transpariental e outros exames.
E, segundo Smith (1993), os procedimentos físicos usuais em síndrome cólica são:
“As observações gerais devem incluir a observação da atitude do cavalo, grau de distensão abdominal, e se há evidência de autotraumatismo externo. [...]. Cavalos adultos com bastante distensão da região do flanco em geral apresentam distúrbio do intestino grosso, causando obstrução e distensão gasosa.[...]. Por ocasião do exame inicial, é importante que sejam registrados os sintomas clínicos, como: freqüência e qualidade do pulso (forte, razoável, fraco), freqüência e qualidade respiratória (eupnéia, tacpnéia, dispnéia), temperatura retal, umidade e coloração das mucosas, tempo de repleção capilar, turgor da pele, temperatura das extremidades (membros e orelhas), pulsos digitais e borborigmos abdominais. A rápida freqüência de pulso (superior a 52 batimentos por minuto) com qualidade razoável ou fraca, prolongado o tempo de repleção capilar (> que 2 segundos), deficiente turgência da pele e extremidade frias, são indicativos de hipovolemia e/ou má perfusão. A presença destes sintomas pode refletir a gravidade do distúrbio gastrointestinal e seus efeitos sobre o sistema cardiovascular, significando a necessidade de fluído terapia intravenosa. [...]. Os sons de borborigmo auscultáveis não se correlacionam com a presença de motilidade normal. Contudo, a ausência de borborigmos sugere ausência de motilidade. [...]. A passagem do tubo nasogástrico até o estômago é indicada em quase todos, senão em todos, os casos de cólica.”
Ainda como métodos auxiliares para o diagnóstico de síndrome cólica, temos os procedimentos laboratoriais, que têm relevante importância para a indicação da terapêutica clínica ou cirúrgica e para o prognóstico do caso. São eles: paracentese abdominal e análise do líquido peritoneal, análise do hemograma, proteína plasmática total, avaliação laboratorial prática do grau de desidratação, fibrinogênio plasmático, lactato sanguíneo, equilíbrio hidroeletrolítico e ácido-base, função renal e função hepática.