Introdução
O equilíbrio alimentar deve ser adaptado ao trabalho físico e ao tipo de prova esportiva, sendo essencial para o hipismo, otimizar o desempenho nas competições e torneios, permitir treinamento rigoroso e seleção menos aleatória dos animais, considerando-se as mais diversas finalidades, como corridas, galope, trote, salto, adestramento, enduro, pólo, caça, entre outros. O melhoramento efetuado com cavalos de corrida é a mais antiga, metódica e eficaz prática de criação, tendo sua origem séculos atrás, pelo princípio básico dos cruzamentos entre os melhores animais. No entanto, a qualidade dos alimentos e da alimentação destes não evoluiu da mesma maneira, estando presa à tradições simplistas e inadequadas às necessidades atuais do cavalo de competição, dando origem a problemas de fertilidade, crescimento esquelético e muscular, fadiga e cólicas, que comprometem todo um programa de treinamento e investimento dos criadores. Os prejuízos refletem-se sobre todos aqueles que atuam ou admiram a eqüinocultura de competição, se traduzindo em prejuízos na rentabilidade do haras; da hípica; da cabanha e consequentemente no sucesso na atividade.
Nutrição e Atividade Muscular
Em um cavalo de 500 kg de peso vivo, para atividade muscular estão prontamente disponíveis 9 kcal em ATP, 45 kcal em fosfocreatina, 18.000 kcal em glicogênio e 1.000.000 kcal em lipídios. Uma superalimentação predispõe o aparecimento de problemas ósseos como a osteocondrose prejudicando a saúde do animal e seu desempenho, enquanto, um excesso de carboidratos altamente fermentecíveis podem gerar distúrbios digestivos graves como as cólicas. Assim a adequação ou equilíbrio na suplementação energética deve levar em consideração a utilização metabólica e reposição destas reservas, seja em treinamento ou em competição.
O cavalo de corrida privilegia a velocidade e o cavalo de enduro privilegia a resistência, o que leva as diferenças significativas no metabolismo energético muscular, como a predominância da glicogenólise anaeróbica em relação à aeróbica e lipólise, respectivamente. Isto se deve aos tipos de fibras constitutivas dos músculos estriados, cujo conjunto enzimático condiciona à orientação de seu metabolismo, consequentemente, a rapidez na contração muscular. As fibras do tipo I têm grande capacidade aeróbica para utilização de lipídios, assegurando uma liberação progressiva de energia para contração, favorecendo o esforço de enduro. As fibras do tipo IIB têm menor capacidade oxidativa e maior dependência da glicólise com forte tendência de acumular ácido lático e altamente exergônicas, favorecendo a contração rápida ou de velocidade. Programas de treinamento adequados permitem a evolução para o tipo IIA com propriedades metabólicas intermediárias, porém, estas aptidões metabólicas são intrínsecas, e os resultados de um programa de treinamento são variáveis com a idade e características da raça e linhagem considerada.
O cavalo Quarto de Milha aparece como um super “sprinter” imbatível nos 400m, pois seus músculos são ricos em fibras de contração rápida, quando comparado com Puro Sangue Inglês e o Mangalarga Marchador. O cavalo das raças Crioulo e Árabe geralmente apresenta-se em padrão intermediário entre provas de explosão e aquelas de resistência. As demais raças que se destacam em provas de longas distâncias ou enduro distinguem-se por musculatura rica em fibras de contração lenta. Outro fator de relevância são as modificações hormonais que acompanham o tipo e intensidade de esforço físico, e também influenciam as recomendações nutricionais, e a elaboração de rações diferenciadas nas proporções entre amido, fibra, óleos e gorduras, como fontes de energia na dieta.
A alimentação deve primeiro evitar um excesso de peso, visando o equilíbrio da função do sistema ósteo-articular e força muscular, o que pode ser alcançado pela adequação dietética entre proteína e energia. Outro fator importante refere-se a suplementação vitamínica e mineral. A deficiência de alfa-tocoferol e selênio podem alterar a eficiência antioxidante e a resistência do sarcolema ao favorecer a saída intracelular de enzimas, que juntamente com a acidez lática, iniciam a desnaturação e ativam a hidrólise das proteínas musculares com possível necrose tecidual. Por outro lado, se a suplementação de colecalciferol, cálcio e fósforo forem deficientes, a anoxia celular e a acidose lática podem levar à desmineralização óssea e despolimerização do colágeno. Assim, convém impedir a acidose lática, evitando sobrecargas glicogênicas no músculo através de um controle alimentar, como a limitação no uso de sacarose antes das provas, acompanhado de um aquecimento muscular. Por outro lado, em provas de longa duração, a anaerobiose promovida na contração muscular permite reposição de ATP e fosfocreatina a partir da economia de glicogênio, e os ácidos graxos derivados da lipólise periférica assumem papel relevante como fornecedores de energia, sejam eles oriundos da dieta ou produzidos pela microflora simbiótica intestinal.
Outro aspecto que merece atenção é o problema da desidratação e hipertermia, especialmente em um prolongamento do esforço físico em clima quente, causando problemas metabólicos graves, como circulatórios pela insuficiência na oxigenação tissular, desintoxicação, desequilíbrio eletrolítico (sudorese) e rápido esgotamento do glicogênio muscular levando à fadiga e acidose lática (rabdomiólise). Como prevenção, deve-se fornecer água à vontade, associada à soluções protéicas, glucídicas e hiperiônicas. A perda hídrica pode atingir 15 litros / hora em cavalos de corrida e até 10 litros / hora em cavalos de enduro. A prática do banho e duchas para auxiliar no resfriamento da temperatura corporal e o fornecimento de sal mineralizado e uso de volumosos como fenos de gramíneas, também ajudam a reter água corporal e melhoram a resistência à fadiga ou estresse muscular.
Considerações Finais
Os modernos conhecimentos em nutrição eqüina permitem obter excelentes resultados zootécnicos e minimizar os problemas desencadeados por desequilíbrios nutricionais. Portanto, ao se elaborar estratégias alimentares que otimizem o desempenho esportivo e reprodutivo das raças de cavalos de competição, deve-se levar em consideração as exigências de cada categoria, a atividade física executada, e as particularidades fisiológicas da espécie.
------
É autor também deste artigo Alex Martins Varela de Arruda, Professor Doutor da Universidade Federal Rural do Semi-Árido – UFERSA. Depart